Sonhei Escrever um Livro — I Dreamed of Writing a Book
Sonhei escrever um livro. Não sabia o começo, nem o meio, apenas que precisava ser escrito. I dreamed of writing a book. I didn't know the beginning, nor the middle, only that it needed to be written.
Sonhei Escrever um Livro
I Dreamed of Writing a Book
Sonhei escrever um livro. Não sabia o começo, nem o meio, apenas que precisava ser escrito.
I dreamed of writing a book. I didn't know the beginning, nor the middle, only that it needed to be written.
NASCI NO FUTURO, não no meu futuro, mas no futuro do tempo em que deveria ter nascido. Cheguei tarde demais, cheguei quando o mundo começava a esquecer o valor do tempo, do silêncio, da dúvida, e eu ainda não tinha aprendido a falar a língua da pressa. Sempre me senti fora de ritmo, como se a minha história tivesse começado na página errada.
A página em que nasci foi de grandes mudanças, um tempo em que tudo parecia possível. Nessa página, deu-se um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade, cantou-se a paz, o amor e a rebeldia, e lutou-se pelo direito de todos serem iguais nas suas diferenças. Não tendo lembrança dessa página senão por ter ouvido falar dela, percebo hoje que as páginas seguintes foram ficando cada vez mais curtas para nelas caber a pressa do mundo, o ruído das gentes, a avidez das sociedades.
MEU AVÔ costumava chamar-me de “menino dos entremeios”. Dizia que eu vivia entre tempos, entre palavras que sequer sabiam se queriam ser ditas. Do alto dos seus mais de 70 anos, o meu avô era um homem que ainda olhava para as nuvens, que olhava o tempo pelas sombras do dia e não pelos ponteiros de um relógio. Foi com ele que aprendi que o silêncio também é uma forma de linguagem, talvez a mais honesta de todas.
Ele era um homem sofrido, mas resistente, marcado por um tempo de pobreza e dor, pela partida de seus filhos para lutar numa guerra que não lhes pertencia, numa terra que desconheciam, e pelo regresso de homens que não mais reconhecia. Nascido na primeira página de um novo século, assistiu a mudanças que, na maioria das vezes, não compreendia. Sofreu a repressão de um regime agressivo e ignorante, capaz apenas de espalhar pobreza e medo sobre um pequeno povo que, em tempos antigos, ousara descobrir o mundo para além do mundo.
A televisão, que chegara à aldeia quando meu avô tinha já mais rugas do que sonhos, mostrava um futuro de máquinas, de vozes sem rosto, de urgências sem sentido. Ele assistia, em silêncio, às imagens que passavam como promessas que nunca o alcançariam. Não se rebelava contra a mudança, mas também não se iludia com ela. Para ele, as verdadeiras conquistas eram invisíveis: um pedaço de terra arado, uma vinha cuidada, uma família reunida ao redor de uma mesa ou um gesto simples num mundo cada vez mais impaciente. Muitas vezes, eu observava-o de longe, sentado à sombra da figueira, o olhar perdido no horizonte.